Independentemente da proximidade que você tenha com recursos tecnológicos mais modernos, se usa ou não um smartphone ou da maneira com a qual você se locomove por aí no seu dia a dia, você muito provavelmente já ouviu falar do Uber.

O serviço de transporte particular, ou de caronas pagas, como você preferir, foi fundado no ano de 2009 em São Francisco, nos Estados Unidos, por Travis Kalanick – atual CEO da empresa – e Garrett Camp, com investimentos substanciais do ator Ashton Kutcher e do empresário Guy Oseary, responsável pelas carreiras de artistas como U2 e Madonna.

O Uber tornou-se referência de negócios ao apresentar um sistema extremamente simples para usuários em busca de uma carona, fazendo as vezes de táxi, mas com cara de motorista particular. E melhor ainda: com um custo mais barato – por meio de um aplicativo que pode ser instalado em qualquer celular, você contrata uma corrida para levá-lo aonde quiser e o pagamento pode ser feito automaticamente com seu cartão de crédito registrado no app.

Uber: revolução no mercado de transporte particular

Na boca do povo

Após o sucesso do Uber, qualquer coisa que você puder contratar por meio de um aplicativo de celular acaba invariavelmente sendo apelidado de “O Uber” de alguma coisa, dependendo da categoria de serviço que a plataforma fornece. Porém, esse sucesso todo despertou a ira dos concorrentes e praticamente não houve local onde não rolaram brigas quando o Uber começou a funcionar.

Some isso a graves déficits de receita no último ano e temos uma fórmula bastante complicada de lidar para a Uber

Com tudo já consolidado e funcionando em mais de 580 cidades no mundo inteiro, inclusive em quase todo o Brasil, o Uber começou a enfrentar os mais diversos problemas, indo desde a aquisição de licenças necessárias para prestar serviços em determinados lugares até enfrentar processos na justiça por roubo de propriedade intelectual, passando pelo aumento da concorrência em serviços similares e das taxas cobradas, e a precarização das condições de trabalho para os motoristas.

Some isso a graves déficits de receita no último ano e temos uma fórmula bastante complicada de lidar para a Uber, que corre o risco até de falir caso perca algum dos processos astronômicos nos quais está envolvida ou mesmo não consiga lidar com os prejuízos sequenciais.

Carro autônomo da Uber

A Uber está perdendo dinheiro

O ano de 2016 não foi totalmente ruim para a Uber – a empresa conseguiu arrecadar cerca de US$ 20 bilhões, ou R$ 62 bilhões, mundialmente, um valor extremamente alto, mas que não foi o suficiente para gerar lucros para a companhia. Ela afirmou também que, mesmo assim, o crescimento de sua receita está ultrapassando a de seus gastos.

O problema é que a Uber teve uma perda líquida de nada menos que US$ 2,8 bilhões, algo próximo de R$ 8,7 bilhões

Desse valor total, US$ 6,8 bilhões, ou R$ 21 bilhões, é a soma que ficou para a empresa descontando as taxas pagas paras os motoristas. Isso, porém, não inclui o pagamento de funcionários da companhia (além dos motoristas), investimentos em imóveis, compras de veículos e outros gastos desse tipo.

O problema é que a Uber teve uma perda líquida de nada menos que US$ 2,8 bilhões, algo próximo de R$ 8,7 bilhões, sem contar o valor de US$ 1 bilhão, ou R$ 3,1 bilhão, que foi por água abaixo na tentativa fracassada de entrar no mercado chinês no ano passado.

Segredo financeiro

Esses valores foram revelados pela própria companhia por vontade própria, visto que não ela não tem obrigação de fornecer esses dados por não possuir capital público. Os péssimos resultados do ano passado afastam mais ainda a ideia de abrir as ações da empresa, mesmo com seu valor avaliado em quase US$ 70 bilhões, aproximadamente R$ 217 bilhões.

As perdas totais apenas do último trimestre de 2016 cresceram 6,1%, atingindo quase US$ 1 bilhão, mais de R$ 3 bilhões. Segundo o professor de negócios Evan Rawley, da Universidade de Colúmbia, é um valor alto demais para ser gasto em apenas um período de três meses. Muito disso acontece por um mal planejamento da Uber, que acaba perdendo dinheiro com suas tarifas baixas, algumas que sequer bancam a viagem como um todo e a empresa acaba perdendo dinheiro.

Valores recebidos pelos motoristas do Uber

Custo fixo

No Brasil, as taxas cobradas pelo Uber são as seguintes: um valor base de R$ 2, R$ 1,40 por quilômetro rodado e R$ 0,26 por minuto da corrida. Além disso, a empresa passou a cobrar R$ 0,75 por corrida a partir da primeira semana de janeiro de 2017. Chamada de “Custo Fixo”, essa tarifa em como objetivo, segundo a Uber, “ajudar a apoiar iniciativas de segurança para motoristas parceiros e usuários, além de outros custos operacionais”.

O que prova que as taxas do Uber podem ser baixas demais para bancar o serviço é que tanto a companhia quanto os motoristas têm problemas com as tarifas

Do total de cada corrida, 75% fica para o motorista e 25% para a Uber no caso do Uber X, o serviço com menor taxa da plataforma. Já para motoristas do Uber Black, com carros mais luxuosos, as parcelas ficam em 80% para o motorista e 20% para a empresa. O que prova que as taxas do Uber podem ser baixas demais para bancar o serviço é que tanto a companhia quanto os motoristas têm problemas com as tarifas.

Pouco dinheiro

Com um custo de operação muito alto, o Uber tem um preço muito grande para operar, recebendo apenas 25% das tarifas. Já os motoristas reclamam muito das taxas baixas e de receberem apenas 75% do valor das corridas. O TecMundo conversou com alguns condutores da plataforma e a opinião de que o dinheiro feito por meio do serviço é baixo é unânime. Alguns afirmam trabalhar muito mais do que 10 ou 12 horas diariamente, sem folgas em finais de semana e feriados.

A situação piora bastante quando os motoristas não possuem o veículo liberado pela Uber para trabalhar e, portanto, alocam um carro de terceiro para prestar o serviço. Isso faz com que além dos 25% da tarifa que vão para a companhia, o condutor tenha que pagar mais uma fatia para o dono do carro licenciado, causando uma condição de trabalho desumana.

Tudo isso nos leva a alguns outros problemas, como a regulamentação da plataforma e a situação trabalhista dos motoristas.

As tarifas baixas podem ser o calcanhar de Aquiles da Uber

A polêmica da regulamentação e a situação dos motoristas

Assim que o Uber passou a funcionar nas mais diversas cidades do mundo e começou, por sua popularidade, a chamar atenção tanto de potenciais clientes quanto de seus concorrentes diretos, problemas envolvendo possíveis regulamentações de todos os tipos apareceram, como era de se esperar.

O Uber caiu no gosto do público por uma série de motivos: facilidade na hora de contratar o serviço, simplicidade para pagar usando cartão de crédito e, claro, tarifas mais baixas que os táxis

No mundo inteiro, os sistemas de transporte, sejam públicos ou privados, seguem regulamentações para evitar que haja uma exploração indevida de uma atividade que é direito do ser humano – a de se locomover.

Encaixando-se nesse ramo de uma maneira um pouco diferente, por funcionar por meio de um aplicativo para smartphone, o Uber caiu no gosto do público por uma série de motivos: facilidade na hora de contratar o serviço, simplicidade para pagar usando cartão de crédito e, claro, tarifas mais baixas que os táxis, até então único meio de transporte particular privado.

Uber: fácil de acessar e de pagar, tudo por meio do smartphone

Enfrentando a concorrência

Era de se esperar a reação das empresas de táxi. Fazendo pressão em prefeituras e outras instituições governamentais de todos os âmbitos, pessoas envolvidas na indústria do transporte particular lutaram no mundo todo para, de alguma maneira, impedir o funcionamento do Uber ou, pelo menos, sujeitá-lo aos impostos e regras que companhias já existentes seguem.

Acontece que tudo virou uma bagunça só: mobilizações ocorreram tanto para pedir essa regulamentação e até a proibição do Uber e outros aplicativos similares quanto para evitar esse registro e a plataforma continuar funcionando da mesma maneira.

Protesto de taxistas contra o Uber

Negócio arriscado

A necessidade do pagamento de impostos ou outras taxas por parte do app seria um tiro n’água: obrigaria o Uber a aumentar suas tarifas ou até mesmo reduzir sua margem de lucro. As duas coisas poderiam ser fatais para a sobrevivência da empresa no Brasil.

Hoje, o número de carros da Uber na Big Apple é bem maior que o de táxis e tudo funciona de maneira regular e controlada

Acusada de concorrência desleal, a companhia foi bloqueada temporariamente na Itália no mês passado e teve um prejuízo enorme, inclusive com impacto na vida profissional dos motoristas que têm no serviço seu ganha pão.

Nos Estados Unidos, especialmente Nova York, onde um mar amarelo de táxis tomava as ruas de Manhattan, a Uber se deu bastante bem e conseguiu praticamente dominar o mercado de caronas pagas.

Hoje, o número de carros da Uber na Big Apple é bem maior que o de táxis e tudo funciona de maneira regular e controlada, apesar da empresa ainda sofrer processos por problemas trabalhistas com seus motoristas.

Táxis já são minoria em Nova York

Complicação no Brasil também

A situação ainda está longe de se organizar no Brasil. Diversos projetos de lei foram criados, analisados e colocados em votação nas esferas municipal, estadual e federal. PLs aprovadas caíram por medidas judiciais, tanto beneficiando quanto prejudicando a Uber. A situação atual continua sem uma decisão final, concreta, mas a empresa continua operando normalmente em um grande número de cidades no país.

A Uber também sofre com processos judiciais que vão desde más condições de trabalho para seus motoristas até a acusação de roubo de propriedade intelectual

Quaisquer exigências demasiadas feitas à Uber poderiam ser o prego derradeiro no caixão. Por causa de leis rígidas para seu funcionamento, a empresa anunciou o encerramento de suas atividades na Dinamarca no último mês de abril. A pressão dos sindicatos de taxistas foi grande demais para a Uber, que tinha cerca de 2 mil carros em funcionamento no país e quase 300 mil passageiros.

Além dos problemas com a regulamentação do serviço, a Uber também sofre com processos judiciais que vão desde más condições de trabalho para seus motoristas até a acusação de roubo de propriedade intelectual de outras empresas.

Campanhas contra o Uber pressionaram cidadãos e legisladores

Processos por todos os lados

A Uber acabou por se tornar uma empresa muito visada dada a natureza de seus serviços – que chamaram a atenção por mudar a lógica de funcionamento do transporte urbano de maneira bastante radical.

Além disso, o empreendedorismo do fundador e CEO da empresa Travis Kalanick o leva a se embrenhar por áreas cujo desenvolvimento é extremamente caro e arriscado, como os veículos autônomos que a empresa quer produzir para levar passageiros sem motoristas em um futuro próximo e até – por que não? – automóveis voadores!

Carro autônomo

O problema é que a Uber foi processada pela Waymo, a empresa da Alphabet, dona também da Google, responsável pelo desenvolvimento de carros autônomos e que já possui alguns protótipos em estágio avançado de teste. Acontece que Anthony Levandowsky, ex-funcionário da Waymo, teria partido da empresa levando mais de 14 mil arquivos confidenciais para sua nova companhia, a Otto.

A Waymo anunciou uma parceria com a Lyft para o emprego de carros autônomos no serviço de caronas particulares pagas

O problema é que apenas alguns meses depois, a Otto foi comprada por ninguém menos que a Uber. A Waymo não perdeu tempo e, reunindo ainda mais provas de que a ação não foi muito idônea, processou a Uber por roubo de propriedade intelectual e acusou Levandowsky, inclusive, de ter fundado a Otto apenas como empresa de fachada para disfarçar a condução das informações subtraídas da Waymo para a Uber.

Para complicar mais ainda a situação, a Waymo anunciou uma parceria com a Lyft para o emprego de carros autônomos no serviço de caronas particulares pagas. A Lyft é nada menos que um dos principais concorrentes da Uber nos Estados Unidos, presente em mais de 300 cidades norte-americanas.

Protótipo de carro autônomo da Waymo

Problemas trabalhistas

Outro grande problema que a Uber enfrenta – e não apenas no Brasil – são os processos trabalhistas movidos por motoristas que alegam diversas coisas, de vínculos empregatícios que deveriam incluir adicionais noturnos, por exemplo, até pagamento precário e abaixo do salário mínimo exigido.

A Uber teria que pagar para ele direitos como aviso prévio indenizado, férias proporcionais, fundo de garantia e o correspondente a adicionais noturnos, horas extras e feriados

Um caso que ficou famoso no Brasil aconteceu em fevereiro desse ano, no qual o juiz do trabalho Márcio Toledo Gonçalves, da 33ª vara de Belo Horizonte, em Minas Gerais, reconheceu o vínculo empregatício entre um motorista e a Uber, dando ganho de causa para o reclamante e condenando o serviço de transporte privado.

Assim, a Uber teria que pagar para ele direitos como aviso prévio indenizado, férias proporcionais, fundo de garantia e o correspondente a adicionais noturnos, horas extras e feriados, além de um reembolso de mais de R$ 2 mil relativos aos gastos com o veículo. A empresa informou ao TecMundo, na época, que iria recorrer da decisão do juiz.

Motoristas do Uber são como funcionários comuns?

Futuro incerto

A Uber, como todas as empresas, enfrenta diariamente uma série de problemas dos mais diversos possíveis e tenta lidar com isso da melhor maneira possível. Porém, é inegável que a imagem da empresa anda um pouco abalada com tudo o que vem acontecendo e foi relatado de maneira breve nesse artigo.

Os próximos meses e até anos serão cruciais para que a Uber se consolide de vez nesse mercado que revolucionou de maneira tão simples

Com uma margem de lucro bastante baixa, um processo milionário sobre a empresa pode colocar tudo por água abaixo, eventualmente tirando o Uber de algumas cidades, países ou até mesmo tendo problemas para se manter em funcionamento.

A companhia, que chegou até a enfrentar acusações de ter uma “cultura de assédio sexual”, tenta se blindar ao máximo para que isso não venha a ferir a imagem positiva que chegou aos consumidores nos últimos anos.

Os próximos meses e até anos serão cruciais para que a Uber se consolide de vez nesse mercado que revolucionou de maneira tão simples ou acabe apenas saindo de cena e deixando o caminho aberto para novas ideias e atitudes nessa atividade essencial que é o transporte de pessoas.