Brasil Destaque
Publicado em 01/02/2018 às 6:36 - Autor:

‘Sereísmo’ vira alvo de campanha de segurança, e praticantes reagem

15174533395a72801b66ae8_1517453339_16x9_sm

Praticantes acusam o instituto de divulgar mentiras sobre a prática

KLEBER NUNES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Neste verão, as caudas de tritão ou de sereia estão no centro de uma polêmica e ainda na mira do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia). O órgão encabeça uma campanha em todo o Brasil para alertar sobre eventuais perigos do acessório e que poderiam levar à morte especialmente de crianças e adolescentes.

Adeptos do “sereísmo” –a prática de nadar com caudas de sereia– acusam o instituto de divulgar “mentiras” sobre o equipamento e iniciar um processo que pode levar à proibição do hobbie entre amadores e até do ganha-pão de sereias e tritões profissionais, o que já acontece há pelo menos dez anos no país.

Tritão é o deus marinho mitológico, filho de Posseidon. Entre os praticantes do “sereísmo”, é também como são chamadas as versões masculinas das sereias.

A preocupação do Inmetro está mais precisamente na extremidade da cauda, onde fica o monofin –a nadadeira. Semelhante ao rabo de peixe, ela une as pernas do usuário, obrigando-o a fazer ondulações para conseguir nadar.

“A cauda compromete o equilíbrio e dificulta que a pessoa fique de pé. Além disso, o monofin prejudica a flutuabilidade e pode levar ao afogamento silencioso”, explica Milene Cleto, pesquisadora do Inmetro.

Os três riscos também destacados em cartaz divulgado na internet pelo Inmetro são resultado, de acordo com Milene Cleto, de um Estudo de Impacto Regulatório realizado no ano passado pelo instituto e discutido por uma comissão técnica.

O grupo reúne, além do órgão estatal, a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a ONG Criança Segura Safe Kids Brasil.

A peça publicitária está sendo divulgada com números recentes de afogamentos no Brasil levantados pela Sobrasa. De acordo com o texto, pouco mais da metade das mortes por afogamentos em piscinas no país ocorrem com crianças na faixa de 1 a 9 anos de idade. Esse acidente é também a terceira causa de óbito registrado entre meninos e meninas de 10 a 14 anos.

Em um vídeo publicado no YouTube, uma garota, usando a cauda de sereia, quase se afoga ao ficar de ponta cabeça dentro de uma piscina de plástico. Nas imagens gravadas em 2015 e com mais de 270 mil visualizações, a menina é salva pela mãe.

“Não conseguimos identificar mortes por afogamento com uso da cauda de sereia em nenhuma parte do mundo. O Inmetro, mesmo assim, recomenda que os pais que forem adquirir o produto fiquem bem atentos e próximos a seus filhos, a pelo menos um braço de distância quando estiverem na água”, diz a pesquisadora do Inmetro.

Se houver acidentes como os que as caudas de sereias e tritões podem ocasionar, o Inmetro orienta que o caso seja registrado na página do sistema de monitoramento de acidentes de consumo do próprio instituto.

‘MITO E BABAQUICE’

A falta de dados que comprovem os riscos do monofin e a ausência de diálogo da comissão técnica do Inmetro com os praticantes do sereísmo provocaram uma onda de reação entre os adeptos da prática. Pioneira no país, a mergulhadora e instrutora de sereias e tritões Mirella Ferraz criticou a campanha que, de acordo com ela, “demoniza uma brincadeira lúdica”.

“A cauda é utilizada em países do mundo inteiro e nunca se ouviu falar de tragédias por causa do seu uso. Dou muitas aulas em clubes e o que vejo são pais largando as crianças achando que salva-vidas têm que olhar 200 crianças”, diz.

Mirella inspirou a personagem de Ísis Valverde na novela “A Força do Querer”, exibida no ano passado pela TV Globo. “É mentira que a cauda impede de ficar de pé e não permite a flutuabilidade. A campanha não ajuda, cria mitos”, diz a instrutora.

Para a analista de e-commerce e praticante do “sereísmo” Camila Piccini, 27, “é preciso respeitar o tempo de aprendizagem da criança em todas as situações dentro ou fora da água”.

O publicitário Pedro Henrique Amâncio, 23, mais conhecido como Tritão PH, concorda que crianças que não têm experiência com o monofin podem sofrer acidentes, mas discorda que o alvo da iniciativa do Inmetro deva ser as caudas.

“É uma babaquice de pessoas leigas que não entendem nada sobre as caudas. Uma criança pode morrer andando de bicicleta, por exemplo, é uma questão de prática. A campanha tem que focar a importância dos cuidados na água independentemente de qualquer coisa”, afirma.

Tritão PH treina o nado com o monofin desde 2012. Ele diz temer que a campanha impeça a prática no Brasil. “A campanha em si já é um proibição, tira a liberdade das crianças de sonharem e de serem o que quiserem.”

Milene Cleto, pesquisadora do Inmetro, afirma que não há possibilidade de proibir o uso das caudas. “O foco é a campanha, porque podemos ter pessoas que vão ter condições de uso do produto e as que não vão ter. Nunca se falou em proibição.”

Comentários