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Publicado em 03/08/2017 às 15:02 - Autor:

PORTUGAL: Avião faz pouso forçado em praia e mata dois banhistas; assista

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A avioneta que aterrou na quarta-feira de emergência na praia de São João da Caparica, em Almada, estava em voo de treino com um aluno e um instrutor sénior “com elevada experiência”. O acidente fez dois mortos, colhidos na praia. O Ministério Público já está a investigar as causas.

aeronave Cessna 152 aterrou na quarta-feira de emergência, pelas 16h50, numa praia com elevado número de banhistas. Tinha descolado de Cascais e voava com destino a Évora. Os dois pilotos escaparam ilesos, mas no processo de aterragem, a avioneta colheu duas pessoas: um homem de 56 anos e uma criança do sexo feminino de oito anos.

A Procuradoria Geral da República (PGR) já confirmou que instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias do acidente com a avioneta.

O capitão do Porto de Lisboa, Paulo Isabel, adiantou que os dois tripulantes, depois de já terem sido interrogados pela Polícia Marítima, ficaram com termo de identidade e residência e serão ouvidos na quinta-feira por uma procuradorado Ministério Público.

Segundo o mesmo responsável, correm dois processos em paralelo: um de natureza judicial, no âmbito do Ministério Público, e outro de natureza técnica, levado a cabo pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários.

No momento da aterragem de emergência, quando saíram da aeronave, o aluno piloto e o instrutor sénior – com “elevada experiência e milhares de horas de pilotagem”, segundo fez saber a escola de aviação Aerocondor, em Torres Vedras, à qual pertenciam -, os ânimos exaltaram-se.

Banhistas que se encontravam na praia e assistiram à aterragem de emergência revoltaram-se, tendo tentado agredir os dois tripulantes. Segundo o JNM, que cita a agência Lusa, foi inclusivamente necessária a intervenção da Polícia Marítima para acalmar os ânimos dos presentes.

Herói no meio da tragédia

Antes da Polícia Marítima chegar, quem ajudou a impedir uma segunda tragédia, caso a agressão aos pilotos se viesse a consagrar, foi Nicolas dos Santos, o jogador de basquetebol do Benfica que, em conjunto com o nadador salvador ajudou a proteger a equipa de aviação da “fúria dos presentes”, segundo comunicado do Benfica.

“A minha mulher correu para junto da criança e não conseguia parar de chorar porque assistiu a tudo e à aflição da mãe abraçada à filha. Foi horrível. Eu corri para ajudar o nadador salvador, pois havia cada vez mais pessoas a chegar à praia e queriam bater no piloto da avioneta e no tripulante, também eles cheios de medo“, conta Nicolas.

“Eu meti-me no meio para tentar evitar que acontecesse outra tragédia. Quis ajudar. A solução não era bater, era manter a calma e esperar que as autoridades, a polícia e a ajuda médica de emergência chegassem. Manter a calma era o mais importante no momento”, continua.

E se em vez de aterragem fosse uma amaragem?

Sobre o acidente, muitos levantaram a questão de “Porquê aterrar em terra, com o mar ali tão perto?”. Segundo o Observador, há uma explicação técnica que pode ter influenciado a decisão do piloto.

A avioneta que estava a pilotar é básica e pequena. Só tem um motor e, por isso, se falhar, não há segunda opção. Não tem piloto automático, como os aviões comerciais, apesar de haver uma configuração que faz com que o avião fique a planar por mais tempo.

Mas há duas características que fariam com que o avião se estilhaçasse ao aterrar no mar, explica Pedro Diniz, piloto. Por ser uma avioneta pequena, as rodas são fixas e não recolhem. Numa amaragem com este tipo de aparelho, “aconteceria um efeito de ancora” e a avioneta “partia-se ao meio ou ficava desfeita“, explica o piloto.

Por outro lado, a asa deste tipo de avioneta está ao nível da parte superior do aparelho, ao contrário do que acontece com os aviões comerciais, em que a asa está posicionada mais abaixo. Pedro Diniz prevê que, por causa desta característica, se a avioneta amarasse e permanecesse inteira, ficaria completamente submergida.

O piloto esclarece ainda que “o impacto do contacto da avioneta com a água é mais agressivo do que o contacto com a terra”. Isso faz com que o mar seja a última das opções numa situação que obriga a uma aterragem de emergência – da qual os pilotos tomam conhecimento durante a instrução e são treinados para a cumprir.

A primeira opção é “um aeroporto qualquer, mesmo que fechado”. A segunda será “um pedaço de alcatrão. A terceira pode ser uma floresta, um descampado ou, até, uma praia. O mar é sempre uma opção pouco considerável.

“Entre a opção de tentar uma amaragem, que iria correr mal quase por certo, e outra opção com uma probabilidade menos certa”, Pedro Diniz duvida que houvesse muitos pilotos a optar pelo mar, acrescentando que, apesar de, àquela distância, o piloto conseguir ver as pessoas que estavam na praia, havia a possibilidade de ninguém morrer. Já uma amaragem, era morte quase certa para o piloto e o aluno.

Além de tudo isto, o piloto e ex presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação CivilJaime Prieto relembra as dificuldades do lado emocional e humano, ao qual nem pilotos com horas de treino conseguem fugir, frisando ainda, que o aluno teve apenas alguns segundos para avaliar opções e salvaguardar vidas.

“Mayday, mayday”

No áudio da comunicação de emergência, o aluno dá conta de falhas no motor. “Mayday, Mayday, Mayday. Falha do motor, vai aterrar na praia” pode-se ouvir. Do outro lado, alguém pergunta em que praia vai aterrar: “Cova do Vapor”.

Mais à frente, no mesmo áudio, ouve-se a comunicação de feridos: “Eles feriram pessoas na praia. Pedem ambulâncias para a zona com urgência, na Cova do Vapor”. “Todos os meios já estão a ser acionados”.

No mesmo áudio, alguém da equipa de aviação informa já estar no local: “Ele está a reportar que tem feridos na praia. Os pilotos estão bem. Ou seja, a tripulação está bem”. “Fez foi feridos à aterragem, confirma?”. “Afirmativo, exatamente. Eu estive agora a falar com eles. A tripulação está bem. Foram pessoas da praia, por isso é que eles estão a pedir ajuda, está bem?”

O pai em choque

Para a praia deslocaram-se várias reportagens televisivas que foram dando conta de testemunhos pessoais, daqueles que se encontravam no areal no momento do acidente. Entre esses testemunhos, destaca-se o do pai da menina de 8 anos, Sofia, que morreuna tragédia.

O homem dirigiu-se a uma equipa de reportagem da TVI24 para falar da tragédia: “Estávamos ali a brincar, com a maré baixa, onde a água é escoada na lagoa, e estava com o meu cunhado a explicar de forma educativa às minhas duas filhas e aos meus sobrinhos o que é um agueiro e como se forma um agueiro. Entretanto, um dos meus sobrinhos chamou-me a atenção para uma aeronave que vinha baixa junto ao paredão”, conta.

Visivelmente revoltado, e ignorando as tentativas iniciais da equipa de jornalistas de interromper a emissão que estava a passar em direto, o pai da menina prosseguiu com o relato.

“Disse à Sofia, que faleceu, para correr atrás de mim, a Sofia correu aquilo que pôde, quando vi que as crianças estavam em segurança, quando me voltei para trás para ajudar a Sofia vi-a a ser colhida. Dirigi-me ao senhor que vinha a pilotar a aeronave e o senhor disse-me que perdeu o controlo da aeronave e eu podia ter-lhe dado dois socos, tinha esse direito, mas não o fiz“.

Zap Portugal

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