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Publicado em 04/11/2017 às 7:23 - Autor:

NEGÓCIOS: Como é ser motorista da Uber?

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ILUSTRAÇÃO GONÇALO VIANA

Há quem seja assediado, quem enriqueça em apenas um ano, quem encontre a sua liberdade ao volante e quem passe por motorista privado para manter aparências. Viagem pelo mundo dos motoristas da Uber

Bernardo MendonçaBernardo Mendonça Texto

Como escreveu Eça, o dia estava de ananases. No telemóvel acabara de cair um pedido para o bairro da Lapa, em Lisboa. Não demorou muito para que Nuno Guerreiro chegasse até ao local indicado pelo mapa da aplicação do telefone. Mal parou, deslizou para o banco de trás uma senhora bem trajada, na casa dos 50, educada, vaporosa.

“Bom dia! Leve-me para a Praia da Rainha, na Costa da Caparica, por favor.”

A maior parte do trajeto foi sem história, com a cliente a falar entusiasmada ao telefone com as amigas estendidas ao sol. “Que bom, estou a chegar, está bom? Estão na areia? Não? Na esplanada? Que máximo.”

Pouco antes do fim da viagem um sorriso envergonhado precedeu a pergunta:

— Posso pedir-lhe um favor?

— Se eu puder, claro.

— Pode fingir que é o meu motorista particular quando chegar perto das minhas amigas?

— …

— Depois, eu dou-lhe qualquer coisinha

— Oh, minha senhora, se isso a faz feliz, tudo bem.

Chegados ao local do crime, perdão, ao destino, mesmo junto às ditas amigas como fora expressamente solicitado, a senhora sai, acena com gestos bem desenhados para elas e despede-se do condutor: “Pronto senhor Nuno, por hoje não preciso mais nada de si. Até amanhã!” E, discretamente, coloca-lhe algo na mão cerrando-a bem cerrada para que ninguém veja o que lá vai dentro. Nuno cumpre o papel de amoroso chofer, agradece à madame, entra no carro e mal coloca as mãos no volante olha cheio de curiosidade para o valor da dita oferenda — 50 cêntimos. O dia estava de ananases e teso. Nem deu para o café… “As pessoas vivem demasiado de aparências.”

Esta é uma das milhentas histórias de estrada contadas pelo Nuno ao volante da viatura que nos levou da redação do jornal até ao Campo Pequeno, local onde tínhamos outra conversa marcada. O autor destas linhas não se identificou de imediato como jornalista. Quis usar este serviço da Uber, como um comum cliente, mais uma vez. E deixar fluir, para que a situação fosse a mais natural possível e ver se falaríamos de futebol — um mau assunto dado o mesmo autor não ter muito que dizer sobre o assunto —, sobre política, sobre incêndios, ou outra coisa qualquer. Calhou começarmos por falar de aparências.

ILUSTRAÇÃO GONÇALO VIANA

Chamámos um carro da categoria Uber X, a mais barata, como qualquer outro utilizador da aplicação. Antes instalámos a app num smartphone e inscrevemo-nos com uma conta ligada a um cartão de crédito. Não foi necessário fazer qualquer chamada, vimos de imediato qual o condutor que estava mais perto, quanto tempo iria demorar e mal fizemos o pedido apareceu o perfil do condutor Nuno no visor do telemóvel. A modernidade e os novos tempos estão seguramente a passar por aqui. Mas com alguns espinhos. Este é uma atividade ainda não regulamentada pelo Governo, apesar de funcionar há três anos, mais precisamente desde julho de 2014. Contra a vontade dos taxistas. Uma app que já conta com cerca de três mil motoristas, entre Lisboa, Porto e Algarve. E não para de crescer e de ganhar adeptos pela facilidade com que um cliente chama um condutor através de um smartphone. De acordo com dados da Uber, desde que arrancou em Portugal já foram realizados um milhão de downloads da aplicação.

Nuno, o condutor que respondeu à chamada, cumprira até então 1692 viagens em oito meses de experiência e tinha uma pontuação de 4,89 estrelas (na escala de 1 a 5). Nada mau. O seu forte é a “experiência” e a “conversa”, dizem os comentários e pontuações dos anteriores utilizadores. Comprovou-se. Nuno coleciona histórias como um padeiro coleciona carcaças pela madrugada. Afinal de contas no seu carro “passa o mundo… e arredores”. Conta-nos de seguida a vez em que apanhou, no Rossio, um sujeito sorumbático que seguiu a bordo do seu carro sem tirar os olhos do telefone. Chegado ao destino, olhou apardalado em redor agachando-se de imediato nos bancos, para se esconder. “Ai que me enganei, selecionei a morada da minha ex-mulher… Tire-me daqui, por favor, antes que ela me veja.”

Nuno diverte-se e olha pelo espelho retrovisor para avaliar o impacto dos seus relatos. Um acaso levou-o a ser condutor, depois de uma vida a trabalhar numa gráfica como arte-finalista. A empresa subitamente fechou e Nuno viu-se, de um momento para o outro, no desemprego, com dois filhos para sustentar — uma filha de 19 anos e um rapaz de 3. E teve de se reinventar. Foi um amigo, condutor da Uber, que lhe soprou a ideia. Como estava sem nada em vista decidiu experimentar. “Tenho 48 anos. Como tantos outros, sou novo demais para a reforma e velho demais para arranjar emprego.” Começou por trabalhar à percentagem 12 horas por dia, 6 dias por semana. E de todo o dinheiro feito na estrada apenas 30% ficavam para ele; a maior fatia, os restantes 70%, iam para o dono do carro. Isto depois dos 25% dos valores de cada viagem que caem diretamente na conta da Uber. Ao fim do mês, raramente Nuno passava a barreira dos €600. Não aguentou mais de dois meses. “Só de empréstimo de casa pago €470.”

Passa a outro sistema. Ele há muitos — viemos nós a perceber ao longo desta reportagem. Um sujeito entregou-lhe um carro para as mãos, com alvará de animação turística. Ficou combinado que apenas teria que lhe pagar €100 por semana. €400 por mês, portanto. O gasóleo era por sua conta, as restantes despesas do carro ficavam a cargo do proprietário da viatura. Passa a ganhar mais. “Entre €700 e €1200 por mês.” Procuro saber mais. “O senhor é inspetor da Uber?” É aí que me identifico como jornalista e explico a reportagem que estou a fazer. “Ah! É porque andam por aí inspetores que fazem muitas perguntas para analisar a nossa conduta.” Explica-nos que nunca teve a má sorte de apanhar algum, mas que um colega teve essa experiência. Nada boa. Conta-nos que o falso cliente pediu para parar temporariamente num snack-bar para comer qualquer coisa e que pedira ao condutor para aguardar um bocado. Nesse compasso de espera o condutor que estava há quase 12 horas a conduzir, saiu também para tomar um café. A viagem cumpriu-se sem aparente problema. Dois dias depois chega um relatório e um ralhete. “Nunca o condutor pode ausentar-se do carro durante um serviço.”

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Ouve-se a voz rouca de Ana Moura em ‘Dia de Folga’. A rádio está sintonizada na Comercial. “Manhã na minha ruela / sol pela janela / o senhor jeitoso dá tréguas ao berbequim. // O galo descansa / ri-se a criança / hoje não há birras / a tudo diz que sim.” Mas Nuno faz questão de dizer que não diz que sim a tudo. Apesar de ser avaliado por cada utente em cada viagem e apreciar uma chuva de cinco estrelas de cada vez. “Tenho boa média, sou simpático com toda a gente, mas não admito faltas de respeito.” Como o caso de uma rapariga que se descalçou no banco da frente e colocou os pés no tablier, à vontadinha, como se costuma dizer, ou o caso de um sujeito que entrou no seu carro com destino ao aeroporto pedindo para ligar os quatro piscas e buzinar porque estava atrasado. E quando ouviu um redondo não de Nuno, o utente culpou-o de “má vontade” e de vir a “perder o voo”. Dessas vezes não teve amor às estrelas. “Há limites.” E já que falamos de amor, a sua estrela maior é a companheira brasileira que conheceu em São Salvador da Bahia. Ele estava de férias num resort, ela era guia intérprete, o samba e o açúcar na voz dela ditaram a paixão. “Ela é comercial e dá aulas de axé e zumba num ginásio.” Entre tanta conversa ao volante, zumba, o nosso condutor falha a curva onde devíamos ter virado. “Peço desculpa. Foi sem querer. Mas não se preocupe. Viramos já ali à frente. E, de qualquer maneira, esta aplicação defende o melhor percurso para o cliente. Não receberei mais por este desvio. O que lhe apareceu como estimativa, é o que vai pagar. E pode sempre fazer verificação de tarifa.” E, aproveita a deixa, para lançar uma boca contra os adversários que os perseguem, os taxistas. “Para eles, os taxistas, é que é bom, podem andar às voltas e ganham mais por isso. Eles é que andam nesses esquemas, como todos sabem.” Pagámos €19,77 por 22 quilómetros e 38 minutos de viagem. Confirmou-se, mais coisa menos coisa. Na aplicação o valor estimado inicialmente andava entre os 14 e os 19 euros. Despedimo-nos. Esta era também uma das suas últimas viagens do dia. “Amanhã há mais.”

Gonçalo Santos, de 37 anos, tem bem mais estrada e ainda melhor pontuação do que Nuno. A saber: 2811 viagens em 9 meses e uma classificação de 4,9 estrelas. Uma estrela da Uber, portanto. Gonçalo apresenta-se como um simpático fura-vidas e fura negócios. Onde lhe cheira a dinheiro ele entra a pés juntos. Desta vez não o conhecemos em viagem através da app. Entrámos em contacto com ele através das redes sociais, num grupo da Uber Portugal. Gonçalo nasceu em Angola, mas passou a adolescência e o início da fase adulta em Lisboa. Em 99 decidiu regressar à sua terra, Luanda, para matar saudades e, acima de tudo, procurar fazer fortuna. E foi rápido a consegui-la. Enquanto os tempos eram prósperos, montou um restaurante e uma empresa de eventos, e ainda mais outra de restauro de casas. “Ganhei muito. Servia luxo à mesa. O nosso buffet era o mais caro de Luanda e frequentado por ministros. O atual Presidente, João Lourenço, era meu cliente. O luxo vende. O angolano gosta de exibir o luxo.” Culpa a crise e a crescente onda de assaltos violentos como a principal razão para ter regressado. “Os roubos envolvem frequentemente assassínios. Violam as crianças à frente dos pais. Os próprios militares e a polícia tiram a farda e participam em assaltos se o Estado falha no pagamento de salários.” Gonçalo veio com pouco no bolso. “A maior parte do meu dinheiro está empatado no banco. Tinha uma vida boa, uma boa moradia, um bom BMW. Ficou tudo para trás. Mas mais tarde ou mais cedo vou conseguir recuperar o que lá deixei.” Afirma que tem por lá “cerca de 300 mil dólares.” Por cá começou por abrir uma pastelaria. Mas ele era mais carros. “Trabalhava demais para o que ganhava.” Fechou-a. Ouviu falar da Uber e ficou interessado. Aluga uma viatura para o efeito, pagando €250 à semana. €1000 por mês. Estreou-se com um mau negócio que lhe rendia pouco mais de €600 por mês. Mas não se deixou ficar. “Adoro conduzir e depressa percebi que isto dá pouco dinheiro para quem não tem carro próprio, mas facilmente conseguimos fazer outros negócios através disto. Ser condutor de Uber dá acesso a uma ótima carteira de clientes…”, afirma com conhecimento de causa. E abre o livro aos seus esquemas paralelos. Nos primeiros meses na Uber conseguiu vender uma casa de um amigo a outro angolano que conheceu através de uma viagem pela aplicação. A bordo do seu carro soube que ele procurava um teto para os filhos que estudavam em Lisboa e rapidamente mexeu os seus contactos. Em poucos dias conseguiu a casa que o cliente procurava e meteu ao bolso sem muito trabalho €7000 de comissão. De forma semelhante, vendeu dois carros de amigos. E foram mais €2000 para a sua conta. São os negócios do banco da frente para o banco de trás, à margem da Uber.

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Gonçalo apanhou as manhas rapidamente. Até porque já vinha com a escola angolana. Está sempre atento a grupos de turistas a quem propõe um dia inteiro de passeio por €250. Não sabe falar inglês, mas como se pode ler num dos comentários deixados por escrito no perfil da aplicação é bem desenrascado: “Kind, professional, and great comunicator. Could not speak english but used app to translate and worked out well. Car was perfect.” (Atencioso, profissional e bom comunicador. Não fala inglês mas usou uma app para traduzir e resultou bem. O carro era perfeito.) Chega a falar de tentativas de assédio sexual por parte de homens estrangeiros. Mas garante que levou sempre esses avanços na desportiva. Uma vez, uma rapariga entrou no seu carro, ao fim da noite, a queixar-se de dores e tensões, dizendo que precisava de uma boa massagem. “Perguntou-me se conhecia alguém. Que estava mesmo a precisar. Eu só não caí na tentação porque tinha que fazer um transfer daí a meia hora…”, deixa escapar em jeito malandro. Mas nem tudo são maravilhas e estrelas no firmamento desta app. Também ele já teve os seus desentendimentos, recebeu má pontuação por isso e sempre que pode foge como o diabo da cruz de certos clientes-tipo. “Por exemplo, se me chamarem à noite à zona da Lapa, em Lisboa, e se a cliente for uma mulher com pontuação baixa [os condutores também pontuam os utentes] eu recuso. São consideradas as piores clientes. Às sextas e sábados há muitos jantares, as miúdas chamam o carro já muito atrasadas, fazem-nos esperar e depois queixam-se de não andarmos muito depressa. É péssimo. Um stresse.” [Nota: De facto é estranho este bairro ser nomeado duas vezes no mesmo artigo por dois condutores diferentes.]

Entretanto, há vários meses que Gonçalo comprou um carro com financiamento do banco e passou a apresentar-se diariamente de fato e gravata. Porque à parte da Uber faz transfers para hotéis. “As pessoas gostam e dão-me frequentemente 5 estrelas por isso.” Afiança que consegue ganhar €2000 brutos por mês com as viagens da Uber, além dos transfers que lhe compõem mais um tanto o ordenado. É o seu próprio patrão, mas não é brando consigo. Trabalha entre 7 e 12 horas por dia, praticamente todos os dias da semana. E alerta ainda para uma nuance que o favorece nesta app. “Eu como tenho uma muito boa pontuação, sou mais vezes chamado. Veja-se, se estiverem cinco carros estacionados juntos, o melhor pontuado é sempre o primeiro a sair. É o meu caso.”

Gonçalo tem um alvará de passeios turísticos. É, aliás, aqui que reside a grande polémica entre taxistas e condutores da Uber. Nenhum condutor da Uber tem uma licença como transporte público de passageiros. Por isso os taxistas e o Instituto de Mobilidade e dos Transportes, a quem compete licenciar os transportes públicos de passageiros, insistem que os condutores da Uber atuam à margem da lei, de forma ilegal. Mas a verdade é que há cada vez mais utentes rendidos aos preços mais em conta da Uber, a esta app que não envolve troca de dinheiro direta, que permite classificações e comentários e onde os condutores se costumam apresentar de uma forma mais polida ou refinada. Até nas escolhas musicais, aconselhadas pela Uber, dado que a bordo costuma tocar Smooth FM. Entretanto, a aprovação do diploma para regular esta e outras plataformas eletrónicas de transporte (como o Cabify) mantém-se pendente no Parlamento sem data marcada. Prevê-se que esta questão volte a ser debatida em novembro. Em setembro, Marcelo pediu paciência: “A lei é para aplicar.” Em Inglaterra as coisas não estão melhores. Recorde-se que desde o final de setembro expirou a licença para a Uber operar nas ruas de Londres, e embora a aplicação continue a funcionar, não se sabe até quando. Por cá, Rui Bento, diretor geral da Uber em Portugal, comenta ao Expresso sobre a lei que aí vem: “Esperamos que o quadro regulatório seja flexível, transparente, adequado às realidades e desafios dos dias de hoje, e inclusivo de novas tecnologias e modelos de negócio.” O que acaba de ser notícia é a aposta da Uber em trazer para Lisboa o seu novo Centro de Excelência para a Europa, que pretende apoiar utilizadores e motoristas e criar 250 postos de trabalho.

O que parece continuar a ser um centro de conflito é o aeroporto de Lisboa, onde ocorrem frequentemente brigas de taxistas com os condutores da Uber. Mas, ao contrário de muitos colegas seus, Gonçalo não se recusa a ir buscar turistas acabados de aterrar, apesar de saber estar debaixo da mira da polícia, que lhes passa multas, e dos táxis. “Cresci em Angola em tempos de guerra. Aprendi a dar a volta a situações complicadas.”

ILUSTRAÇÃO GONÇALO VIANA

Augusto Júnior tem um discurso em muito semelhante a Gonçalo. Também já ganhou muito e perdeu outro tanto entre vários empregos e países. Natural de Moçambique, foi supervisor de seguros em Portugal, geriu a publicidade de uma empresa angolana, entre outras atividades. Aos 55 anos, a Uber apresentou-se como o horizonte mais viável para a idade e energia.

Começou a trabalhar por conta de outrem, a ganhar à hora, mas não ficou muito nesse sistema onde recebia pouco: €4,65 à hora. Mal pôde, adquiriu viatura própria, e hoje já consegue ganhar 700 euros por semana, 2800 por mês, brutos claro está, trabalhando 10 horas por dia, 6 dias por semana. “Dá bem para mim.” E, tal como Gonçalo, está classificado com 4,9 — é Uber Star. O episódio mais surreal que viveu através da Uber foi quando se viu envolvido num suposto esquema de correio de droga. Tudo aconteceu durante o dia, quando foi apanhar alguém perto da Feira da Ladra, num descampado. “Dei-me conta que quem chamara o carro não era quem entrou. Quem entrou foi um rapaz com escola de malandro que pediu para eu o levar a vários apartamentos ao longo de Lisboa. Subia, pedia para eu esperar e continuava no circuito da mercadoria. Para lá foi sob grande tensão e para cá vinha aliviado. Não tenho dúvidas sobre o que andou a fazer…”

Augusto tem o objetivo de adquirir outro carro e pô-lo a render com condutores a operar para a Uber. Diz-se realizado. E apreciado. “As pessoas gostam de me ouvir. E isso enche a minha autoestima. Por vezes, conto a minha história às pessoas que transporto. A história de Augusto, um lutador, um mestiço, filho de mãe também mestiça e pai branco, que foi muitos anos educado a ser submisso e a ver a raça branca como superior. A minha mãe nunca me deixou aprender a língua nativa, a Ronga e a Changana, e só deixava entrar a minha avó, mãe dela, que era negra, pela porta das traseiras. Só há pouco tempo ganhei coragem de recuperar as minhas raízes. Esta questão da pele e da vergonha. Sou condutor da Uber, mas sou livre, não sou empregado, nem inferior, nem escravo de ninguém.”

Diego Lima, de 31 anos, e Iasminny, de 21, são um casal de brasileiros que encontrou na Uber em Portugal a via rápida para fazer o seu pé de meia. Chegaram há um ano e cinco meses com pouco. Ele, formado em Direito, foi polícia militar e trabalhou numa igreja evangélica. Ela, fotógrafa de casamentos. Juntos decidiram reinventar-se no nosso país. “Ganhávamos muito pouco (cerca de €550 cada) e a insegurança e criminalidade no Brasil é cada vez mais uma coisa séria. Não podemos sequer andar na rua com um telemóvel na mão. Basta dizer que vivíamos num condomínio fechado e não nos sentíamos seguros.”

Como quase todos os imigrantes, chegaram decididos a trabalhar muito. E a fazer negócio. Ele começou por trabalhar na construção civil e na recuperação de casas, “apesar de não perceber nada do assunto. Fui-me ajeitando”. Quando se estrearam na Uber começaram, como a maioria, a receber à percentagem. Quarenta por cento do que faturavam ia para eles. Dava cerca de 1000 euros. Eles queriam mais. Começaram a alugar carros e a pagar por eles — €280 por semana. Cada um passou a receber €1400. Acabam por dar o passo seguinte. Abriram uma empresa e têm ao serviço sete carros alugados que subalugam a cinco condutores contratados que lhes pagam €280 por semana. No final das contas pagas, esses carros rendem-lhes €2000 de lucro. Idêntica quantia recebem pela sua condução. Ou seja, no final do mês têm €4000.

O casal não pensa ficar por aqui. “Queremos ter 30 carros subalugados. E a Iasminny vai deixar de conduzir para termos filhos e formarmos família. Até agora tem sido uma loucura, andamos a dormir 4h a 5h. Temos de abrandar.”

Um ritmo infernal que se estende a toda a equipa e que já fez com que um colaborador não aguentasse e fizesse as necessidades, literalmente, no banco, por não ter parado. “Foi irresponsabilidade dele. Temos sempre tempos mortos durante o nosso horário…”

Passou pouco mais de um ano e eles já asseguram que gostam bem mais de viver no nosso país do que no Brasil. Não é difícil perceber porquê. “Mas dói estar longe da família. E custa sermos tratados pela polícia como se estivéssemos a roubar ou sermos xingados pelos taxistas”, queixa-se Iasminny. Não há mundos perfeitos.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 de ouubro de 2017

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