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Publicado em 20/05/2017 às 10:54 - Autor:

NEGÓCIOS : Comissão vai investigar vantagem que JBS obteve com dólares

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Antonio Temóteo , Renato Souza – Especial para o EM / , Rosana Hessel /

CVM abriu cinco processos para averiguar operações da empresa, que fez acordo diferenciado de delação

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu 5 processos para investigar o grupo frigorífico JBS e seu controlador, pivô das delações envolvendo o presidente da República, Michel Temer, que vieram à tona na noite de quarta-feira. Depois da divulgação do conteúdo das conversas delatadas, na quinta-feira foram publicadas notícias dando conta de que o frigorífico teria se beneficiado em operações cambiais feitas às vésperas de o escândalo estourar. A estratégia teria favorecido a companhia, uma vez que o dólar disparou para R$ 3,40, valorização de 8,62%, e as negociações na Bolsa de Valores de São Paulo foram paralisadas.

A JBS fechou acordo diferenciado de delação premiada com o Ministério Público Federal no qual ficou acertado o compromisso de sete executivos e sua controladora, a J&F Investimentos, de colaborar com as investigações sobre o pagamento de propinas a políticos. Há informações de que as condições do acordo não preveem prisão ou uso de tornozeleiras, diferentemente do pedido feito em relação a executivos da Odebrecht, delatores da Operação Lava-Jato. O dono da companhia, Joesley Batista, foi liberado para deixar o país. Na tarde de ontem, circularam informações de que toda a família Batista deixou o Brasil. A JBS pagará multa de R$ 225 milhões.

Xerife do mercado financeiro, a CVM abriu o primeiro processo na quinta-feira para obter esclarecimentos sobre o conteúdo da delação dos controladores da companhia. A empresa é dirigida pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Outros quatro processos administrativos foram abertos ontem. Um deles tem como justificativa indícios de prática de informação privilegiada em operações no mercado de dólar e em negociação com ações de emissão da JBS.

A CVM analisa também a atuação da empresa no mercado de dólar futuro e como atuou o Banco Original S/A, controlado pela J&F Participações no mercado de derivativos. O quarto processo abrirá análise sobre negociação do acionista controlador com ações de emissão da companhia. Por meio de sua assessoria de imprensa, a CVM comunicou que divulgará detalhes das investigações em breve, em nota oficial.

As empresas do grupo J&F Investimentos estão entre as últimas companhias nacionais estimuladas desde o governo do PT afetadas por escândalos de corrupção ou por má administração. Elas têm em comum vultosos aportes liberados pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Entre os negócios escolhidos como prioritários que contaram com apoio do BNDES estão empresas do setor de proteína animal.

Enquanto a JBS se tornou líder global em carnes, o frigorífico Marfrig precisou vender ativos para cobrir prejuízos acumulados. As duas companhias, das quais o banco de fomento é acionista, estão na mira da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF). A empresa da família Batista foi alvo da Operação Carne Fraca. Um dos empregados da Seara, uma das marcas vendidas pelo grupo, é acusado de oferecer propina a fiscais agropecuários federais em troca da emissão de certificados sanitários sem fiscalização.

A JBS negava irregularidades até ontem e dizia que era auditada com regularidade para atestar o padrão de qualidade. Entretanto, após a divulgação da delação dos executivos da empresa, ficou claro que o frigorífico pagava propina a agentes públicos em troca de vantagens. O BNDES detinha, até setembro, 20,36% das ações da companhia.

No caso da Marfrig, o fundador e presidente do Conselho de Administração, Marcos Molina, foi alvo de um mandado de busca e apreensão em sua residência em São Paulo na Operação Cui Bono. Segundo as investigações, o frigorífico fez um depósito de quase R$ 500 mil na conta de uma empresa de Lúcio Funaro, doleiro preso na Operação Lava-Jato. Há suspeita de que a transferência ocorreu em troca de um empréstimo de R$ 350 milhões da Caixa Econômica Federal. A Marfrig nega qualquer irregularidade na operação e diz que, na época, a empresa não era alvo de mandados. Até setembro, o BNDES participava com 19,61% da empresa.

Uma das companhias que não deram certo é a Oi. Em junho do ano passado, a empresa ingressou com um pedido de recuperação judicial, ante uma dívida de R$ 65,4 bilhões. Esse é o maior caso da história brasileira a tramitar nos tribunais. A companhia do setor de telecomunicações nunca ameaçou os concorrentes e o banco de fomento mantém menos de 5% dos papéis da telefônica.

PREJUÍZOS “A despeito dos problemas dos executivos, as empresas precisam ser preservadas porque têm papel relevante para a economia e para a sociedade”, avalia o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para ele, quem cometeu irregularidades precisa ser punido e multas devem ser impostas às companhias. Entretanto, linhas de financiamento não devem ser cortadas para asfixiar financeiramente os conglomerados. “Precisam tirar a água suja do banho sem ferir a criança”, resumiu.

Para o economista Gil Castello Branco, secretário-geral da Organização Não Governamental (ONG) Contas Abertas, a política de campeões nacionais trouxe diversos prejuízos para a economia brasileira. Na opinião dele, não teve êxito em gerar empregos e alavancar a indústria brasileira. “O Estado ofereceu recursos públicos com condições generosas para diversas companhias que quebraram ou estão à beira da falência. A política de campeões nacionais, amigas do poder, não deu certo e parece que há uma mudança de orientação”, comentou. (Com agências)

Expansão à base  de dinheiro público

Anápolis, em Goiás, foi palco, em 1953, do nascimento da empresa que se tornaria o maior conglomerado do setor de carnes do mundo. A JBS começou sua expansão a partir da construção de Brasília, quando um de seus fundadores, José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, passou a comercializar carne para as construtoras e empreiteiras que se instalaram no Planalto Central. Dona das marcas Friboi e Seara, hoje, a JBS é a maior empresa privada em faturamento do Brasil, atrás apenas da estatal Petrobras.

Nos últimos anos, a empresa expandiu seus negócios em decorrência de empréstimos bilionários do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Atualmente, atua em 22 países, nos cinco continentes. São 340 unidades no mundo, que reúnem um contingente de 270 mil colaboradores.

O economista José Matias-Pereira, do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB), destacou que o crescimento da empresa tem forte ligação com o aporte dos bancos públicos. “A JBS é uma das empresas que têm maior facilidade em conseguir financiamentos com o setor público. Isso revela que existem empresas inventadas, que começaram sem nenhuma estrutura e conseguiram aportes bilionários do Estado. Esse modo do governo de bancar empresas, em vez de apenas criar condições para seu crescimento, prejudica bastante a economia brasileira”, afirmou o especialista.

A expansão da companhia goiana foi tão rápida que, em 2008, o governo dos Estados Unidos vetou a compra da empresa Smithfield Foods. A transação seria realizada por US$ 565 milhões. Autoridades norte-americanas entenderam que, como já era detentora de outras empresas no país, a compra de mais uma poderia elevar os preços da carne para o consumidor. No entanto, em 2015, a JBS fez uma das maiores aquisições de sua história: a unidade de suínos da Cargill foi comprada por US$ 1,45 bilhão.

O crescimento da JBS e a elevação dos valores recebidos por bancos como o BNDES ocorrem ao mesmo tempo em que doações milionárias são realizadas pela companhia a políticos. Na eleição de 2014, a empresa doou R$ 391,8 milhões para, pelo menos, 16 partidos. Apoio dessa magnitude ajudou a eleger a ex-presidente Dilma Rousseff, 12 senadores, 18 governadores e 190 deputados federais, o que conferiu poder político à companhia a ponto de interferir em decisões como a escolha do ministro da Agricultura. Segundo o último balanço da JBS, o valor de mercado era de R$ 30,3 bilhões no primeiro trimestre. (RS)

Fonte : www.em.com.b

 

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