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Publicado em 05/12/2017 às 7:20 - Autor:

Eleições 2018: Agenda de Temer é do PSDB, que ensaia abandonar governo para salvar imagem

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Segundo analistas, “casamento” com o governo pode custar caro aos tucanos e apoio à reforma da Previdência deve comprometer eleição de 2018

por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – O desembarque do PSDB do governo Temer, que o partido vem ensaiando durante boa parte de 2017, segundo os cálculos do tucanato, é uma tentativa de evitar a contaminação definitiva da legenda por um governo absolutamente impopular e mergulhado em denúncias de corrupção. O problema é que o PSDB já pode ter se comprometido seriamente.

Para o governo, obviamente, a saída dos tucanos, se confirmada, não é uma boa notícia, embora o Planalto venha tentando minimizar o fato. No sábado (2), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se encontrou com Temer em Limeira, interior paulista. O presidente disse que a saída dos tucanos “será uma coisa cortês e elegante, como do meu estilo e do governador”.

“Mas o governo fica mais enfraquecido. Embora o PSDB continue apoiando e fornecendo agenda, alguns de seus integrantes vão se sentir à vontade para analisar se vão ter vantagem ou desvantagem em votar com o governo. No caso da Previdência, se votar a favor, não ganha nada no mercado e se queima perante o eleitorado”, avalia o analista político Antônio Augusto Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

Na opinião Cândido Grzybowski, assessor especial do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), para um grupo com ambição de poder, como o PSDB, começa a ser problemática a defesa da reforma da Previdência em véspera de eleição. “Eles apoiam o que é considerado ‘bom para o país’. Isso dá a linha do discurso que vão adotar. Só que, no caso da Previdência, vai ser difícil dizer que vai ser bom para o país.”

O PSDB  – verdadeiro patrocinador político do impeachment e dono da agenda que motivou a derrubada de Dilma Rousseff – pode ter errado o cálculo. “Eles vão sair do governo para atender a demanda de parte da bancada, mas isso não retira o desgaste do partido, que deu apoio e suporte a essa agenda antipovo”, diz Queiroz. “Ainda que dividido, o PSDB apoiou, por meio de seu então presidente (Aécio Neves), a absolvição de Michel Temer das duas denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR). E vai levar com ele o desgaste de ter apoiado o governo.”

A questão é que, fiel à contradição, mas principalmente à agenda ferozmente neoliberal que motivou o impeachment, a legenda vai continuar com o discurso de que apoia “o que é bom para o país”. “Todas as propostas de reforma de Temer são do PSDB. Nenhuma é do PMDB”, avalia Queiroz.

“Eles saem do governo, mas continuam apoiando a agenda. Saem para preservar a imagem para as eleições, uma imagem de certa autonomia. Mas o PSDB é um partido que apostou no impeachment e está organicamente ligado à ideia do impeachment. Já o PMDB não tem um projeto e é mais oportunista. Quem deu o projeto para o impeachment foi o PSDB”, afirma Grzybowsk.

Para o analista, como a compra de votos no Congresso ficou explícita, principalmente no caso das denúncias da PRG contra Temer, os tucanos desembarcam para evitar serem responsabilizados por isso. “Quanto às reformas, desde que seja as que eles propuseram ao apostar no impeachment, como da Previdência, como foi a trabalhista, ou a do contingenciamento do orçamento, eles apoiam. E vão apoiar outras”, acrescenta.

Tasso x Aécio

Os tucanos continuam rachados. Setores mais jovens do PSDB e caciques como o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) vêm defendendo o desembarque do governo, mas prevaleceu a posição do senador Aécio Neves (PSDB-MG) quando era presidente da legenda. No início de outubro, Tasso foi destituído da presidência interina do partido por Aécio, que colocou em seu lugar o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman.

No sábado, ao lado de Temer, Alckmin seguiu o script tucano. “Quero dizer ao presidente Temer que conte conosco, a boa política é buscar entendimento, entendimento para resolver os problemas do Brasil e melhorar a vida das pessoas”, disse.

Com discurso pronto sobre a necessidade de unir o partido e ainda aprovar as reformas de que “o país precisa”, Alckmin deve ser o próximo presidente do PSDB. A definição sobre o novo comandante da legenda e a decisão de sair do governo Temer devem ser anunciadas na convenção da sigla, no próximo sábado (9).

Atualmente, o PSDB mantém no governo os ministros Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), Aloysio Nunes (Relações Exteriores) e Luislinda Valois (Direitos Humanos). A tendência é só Aloysio ficar na Esplanada.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passou o ano com um discurso ambíguo sobre ficar com Temer ou deixar o governo, mas adotou recentemente um discurso mais afirmativo. “Ou o PSDB desembarca do governo na convenção de dezembro e reafirma que continuará votando pelas reformas ou sua confusão com o peemedebismo dominante o tornará coadjuvante na briga sucessória”, disse FHC em artigo há um mês.

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