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Publicado em 07/12/2017 às 6:49 - Autor:

CINEMA: O menino da cara esquisita

cinema

Jacob Tremblay e Julia Roberts em ‘Extraordinário’

Ajudado por atuações formidáveis, o diretor Stephen Chbosky conduz o relato com a mão firme de quem não teme nem o drama nem a comédia

Quando eu estava na barriga da minha mãe, ninguém tinha nem ideia de que eu iria nascer com esta cara”, conta o protagonista de Extraordinário(Wonder, no título original em inglês), um menino de 10 anos, já nas primeiras linhas do romance de R. J. Palacio que inspirou o filme homônimo. A frase, e a expressão “esta cara”, poderiam servir de paradigmas para o tom – desmistificador, desopilante, quase sarcástico – de um desses filmes equilibristas, dificílimos de resolver, sobre temas e ambientes complicados. Porque “esta cara” é a de um menino nascido com a síndrome de Treacher-Collins, uma má formação craniofacial congênita, que foi operado 27 vezes e, após anos sendo educado em casa pela mãe e saindo à rua escondido por capacete de astronauta, narra sua primeira experiência num colégio, com outras crianças da sua idade.

Na linha do excelente Marcas do Destino (Peter Bogdanovich, 1985), sobre um menino semelhante, mas já adolescente, Extraordinário se aproxima do drama a partir da grandeza do amor de uma família e das inevitáveis rasteiras de uma sociedade que não parece preparada para encarar determinados aspectos da vida – do físico ao moral. Ajudado por atuações formidáveis, com Julia Roberts e um magnífico elenco infantil encabeçado por Jacob Tremblay, o garoto de O Quarto de Jack, Stephen Chbosky, diretor do longa, conduz o relato com a mão firme de quem não teme nem o drama nem a comédia e, sobretudo, de quem sabe que cair no sentimentalismo e no lacrimogêneo seria um golpe baixo contra a essência da sua história.

Embora seja materialmente impossível não soltar algumas lágrimas, o diretor da também estupenda As Vantagens de Ser Invisível (2012), baseada num romance dele mesmo, nunca força a barra do agradável. Seus toques de fantasia – com um garoto que se refugia numa realidade paralela, a de Star Wars, para fazer frente à batalha diária que o espera – e seu senso de humor sempre acompanham o evidente melodrama que domina o conjunto, elegante e respeitoso.

Filme ideal para toda a família, Extraordinário se amplifica com aspectos colaterais, porém essenciais: o poderoso tratamento da personagem da irmã mais velha, a presença de um casal inter-racial – não há tantos no cinema – e o fato de que desta vez cabe ao pai o papel de personagem fanfarrão da história. Assim, um diálogo maiúsculo entre o garoto e um amigo poderia resumir um filme admirável:

– E você não pode fazer uma cirurgia estética?

– Olha, esta cara que eu tenho é graças à cirurgia estética.

Fonte: El pais

 

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