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Publicado em 13/12/2017 às 7:01 - Autor:

CAMPINAS: ‘Ouro Verde’: Secretário e líder de governo na Câmara são investigados, afirma MP

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Com autorização da Justiça, Gaeco monitorou ligações telefônicas feitas por Silvio Bernardin e Marcos Bernardelli (PSDB). Operação apura desvios de R$ 4,5 milhões em hospital e seis já foram presos.

O secretário de Negócios Jurídicos, Silvio Bernardin (Foto: Carlos Bassan / PMC)

O Ministério Público confirmou na tarde desta terça-feira (12) que o secretário de Negócios Jurídicos de Campinas (SP), Silvio Bernardin, e o líder do governo na Câmara, Marcos Bernardelli (PSDB), estão entre os investigados da “Operação Ouro Verde”. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) apura o desvio de R$ 4,5 milhões do hospital municipal e monitorou, com autorização da Justiça, ligações telefônicas de ambos. Seis empresários já foram presos.

As gravações mostram diálogos entre o secretário e o vereador com outros interlocutores em que discutem sobre a Organização Social (OS) Vitale – antes responsável por administrar a unidade médica. Entre os áudios que foram divulgados pelo MP estão conversas de Bernardin com o secretário de Saúde, Cármino de Souza (não é investigado, segundo o Gaeco); e uma conversa entre o vereador tucano com Ronaldo Foloni, apontado como um dos donos da OS e que está preso.

O secretário também havia sido citado durante conversas entre Foloni e o diretor presidente da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Sylvino de Godoy Neto. Veja detalhes da conversa abaixo. O MP não confirmou se Bernardin e o parlamentar serão convocados para depoimentos.

O líder de governo na Câmara, Marcos Bernardelli (Foto: Câmara de Campinas) O líder de governo na Câmara, Marcos Bernardelli (Foto: Câmara de Campinas)

O líder de governo na Câmara, Marcos Bernardelli (Foto: Câmara de Campinas)

De acordo com a Prefeitura, Bernardin afirmou que primeiro tomará ciência de todo o conteúdo para depois se manifestar sobre o caso. “Ele ressalta que acompanha as investigações e que dará toda a colaboração necessária para que o assunto seja esclarecido, diz texto da administração.

Por telefone, Marcos Bernardelli disse ao G1 que está à disposição para esclarecimentos. “Não tenho nenhuma relação com quem quer que seja, os movimentos feitos foram com total, assim, ciência de que era uma situação delicadíssima lá do Ouro Verde e todas as investidas, ponderações, eram no sentido que todo mundo militou. […] Com toda tranquilidade, fico à disposição.”

O Hospital Ouro Verde foi alvo de operação do Gaeco em novembro e, segundo o promotor Daniel Zulian, foi constatado que um grupo ligado à Vitale usava a entidade para desviar recursos por meio de consultorias que nunca existiram. A OS nega envolvimento em qualquer irregularidade.

Investigados planejavam parar hospital

Conversas telefônicas gravadas pelo MP mostra que empresários ligados à Vitale planejavam paralisar o Ouro Verde como forma de pressionar a liberação de verbas. Entre as escutas, o prefeito Jonas Donizette (PSB), investigado pela Procuradoria Geral de Justiça (PGJ), é citado em suposto pedido de aditivo de contrato para a entidade. Clique aqui para conferir a conversa legendada entre os empresários Paulo Câmara e Aparecida (Táta) Bertoncello, que estão presos preventivamente.

MP apura desvio de recursos do Hospital Ouro Verde (Foto: Márcio Silveira/EPTV) MP apura desvio de recursos do Hospital Ouro Verde (Foto: Márcio Silveira/EPTV)

MP apura desvio de recursos do Hospital Ouro Verde (Foto: Márcio Silveira/EPTV)

Gravações desde abril

Com autorização da Justiça, os promotores monitoraram 32 linhas telefônicas de 25 pessoas desde abril deste ano. Duas dessas conversas interceptadas pelo MP citam o prefeito de Campinas.

Uma delas é entre o diretor presidente da RAC, Sylvino de Godoy Neto, e o diretor geral da Vitale, Ronaldo Foloni. Confira trecho abaixo:

– Sylvino de Godoy Neto: Eu tive uma reunião com o Jonas na semana passada e ele me falou que tem recursos, que estão entrando. Até o final de novembro ele deve estar com uma situação melhor de caixa .

– Ronaldo Foloni: Então, dr. Sylvino, na verdade, é o seguinte: hoje essa dificuldade de caixa para nós ela é um tanto quanto clara. Eu só preciso formalizar isso, mesmo que tenha um prazo para isso começar a acontecer, entendeu?

– Sylvino: Foi o que eu falei pro Sílvio (Bernardin). Eu falei: formaliza isso para os caras terem uma segurança.

Trecho de diálogo entre Ronaldo Foloni, da Vitale, e Sylvino de Godoy (Foto: Reprodução/EPTV) Trecho de diálogo entre Ronaldo Foloni, da Vitale, e Sylvino de Godoy (Foto: Reprodução/EPTV)

Trecho de diálogo entre Ronaldo Foloni, da Vitale, e Sylvino de Godoy (Foto: Reprodução/EPTV)

Sylvino é pai de Gustavo Khattar de Godoy, dono da G K de Godoy Radiologia, empresa contratada pela Vitale para realizar os serviços de imagem no Ouro Verde. O empresário também relata ter “pressionado” o secretário de Assuntos Jurídicos de Campinas, Sílvio Bernardin, para liberar mais verba através de um aditamento ao contrato da Vitale.

– Sylvino: Eu fiz uma boa pressão aqui porque editorialmente isso vai pesar muito contra o Jonas, entendeu.

– Foloni: Eu imagino e agradeço.

– Sylvino: Eu falei isso para ele. Eu adverti ele disso. Tá, a gente não vai poder fazer nada, pô. A gente vai ter que noticiar, lógico, um colapso desse tamanho. Então é isso Foloni, qualquer coisa que você precisar, me liga aqui, viu.

Liberação de verbas

Três horas depois de falar com o diretor da RAC, Foloni liga para a presidente da Vitale, Aparecida (Tatá) Bertoncello, para relatar duas conversas. Sobre a primeira, com a então diretora do Departamento de Gestão da Prefeitura, Ivanilde Ribeiro, conta que voltou a pressionar para a liberação de verbas.

– Foloni: Eu fiz questão de deixar claro que se a gente não tivesse uma solução…

 Táta: Nós vamos parar

– Foloni: Nós vamos parar. Então deixei claro isso para ela.

Depois, Foloni relata uma reunião que teve com o médico Gustavo Khattar de Godoy, da empresa de radiologia.

– Foloni: Ele falou assim para mim. Você sabe que quem colocou a Vitale aqui fui eu. Aí eu falei: verdade? Como assim? Ah, porque meu pai começou a fazer matérias, matérias negativas sobre a SPDM [antiga administradora do Ouro Verde]

– Táta: É, é….

– Foloni: E o prefeito que é amigo do meu pai, falou para ele: […] a próxima OS que entrar, o serviço de imagem vou pedir para dar para seu filho. E por isso que ele tá aqui. Aí, eu peguei e falei: então, já que você consegue para a SPDM, certo, então porque você não vai lá e manda o Jonas resolver o meu problema?

– Táta: isso…

– Foloni: Preciso de uma data para começar a receber, senão não tem condições

Reflexos na Casa

Na sessão de segunda-feira, a Câmara aprovou a criação de uma Comissão de Representação para apurar o convênio entre a Prefeitura e Vitale para administração do Ouro Verde. A expectativa é de que na primeira fase sejam avaliados documentos e extratos, segundo a assessoria da Casa.

Vereadores de Campinas divergem sobre CPI (Foto: Câmara de Campinas) Vereadores de Campinas divergem sobre CPI (Foto: Câmara de Campinas)

Vereadores de Campinas divergem sobre CPI (Foto: Câmara de Campinas)

Ao contrário de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), o grupo não tem competência para aprovar, por exemplo, uma condução coercitiva – quando o depoimento de uma pessoa torna-se obrigatório. Para ser aberta, ela precisa da adesão de 11 parlamentares e até o momento as duas iniciativas tratadas no Legislativo ainda não alcançaram adesão mínima para a instalação.

Desde que a 1ª fase da Operação Ouro Verde ocorreu, sete vereadores se manifestaram favoráveis à abertura de CPI, apesar de divergências políticas: Carlão (PT), Gustavo Petta (PCdoB), Marcelo Silva (PSD), Mariana Conti (PSOL), Nelson Hossri (Podemos), Pedro Tourinho (PT) e Tenente Santini (PSD).

Por outro lado, vereadores da base governista defendem que “ainda não é momento para CPI”.

‘Operação Ouro Verde’

Seis empresários investigados cumprem prisão preventiva e foram denunciados à 4ª Vara Criminal de Campinas, na quinta-feira, pelos crimes de organização criminosa, fraude à licitação, falsidade ideológica e peculato. Entre eles está Fernando Vitor Torres Nogueira Franco, que teve dois carros, modelos Ferrari e BMW, apreendidos no dia em que ocorreu a 1ª fase da “Operação Ouro Verde”.

Ferrari apreendida na 1ª fase da Operação Ouro Verde (Foto: José Braz/EPTV) Ferrari apreendida na 1ª fase da Operação Ouro Verde (Foto: José Braz/EPTV)

Ferrari apreendida na 1ª fase da Operação Ouro Verde (Foto: José Braz/EPTV)

Os outros presos são Aparecida Bertoncello, Ronaldo Foloni, Ronaldo Pasquarelli, Paulo Câmara e Daniel Câmara. Os três últimos são apontados no relatório do MP como donos da Vitale e teriam coordenado as ações dos supostos desvios por meio da presidente (Aparecida), além de Foloni e Franco, que tinham as funções de lobistas. A Promotoria diz ainda que os donos da Vitale eram ligados à Pró-Saúde, instituição que administrou unidades no estado e foi alvo de denúncias.

Entre os servidores de Campinas que foram exonerados pelo governo após a operação estão Anésio Corat Júnior e Ramon Luciano da Silva. O primeiro foi exonerado do cargo em comissão de diretor de departamento, junto ao Departamento de Prestação de Contas da Saúde, e foi na casa dele que PMs apreenderam R$ 1,2 milhão levado para a sede do MP. Além disso, ele está suspenso por 30 dias enquanto tramita o processo administrativo do governo municipal.

Já Ramon Silva foi desligado do cargo de coordenador Setorial, junto à Coordenadoria Setorial de Auditoria de Repasse Público ao Terceiro Setor, do mesmo departamento na Saúde.

Defesas

Em entrevista à EPTV, na segunda-feira, o prefeito Jonas Donizette ressaltou que que não há participação dele nas gravações feitas pelo MP.

“Nesse caso específico, são cerca de mil páginas e não tem uma fala minha, uma conversa minha, com quem quer que seja. São terceiros, que falam de coisas e num dado momento citam meu nome. O que que é importante frisar nos diálogos que apareceram. Primeiro, uma pressão e quase que uma chantagem usando a saúde pública para ver se tiravam mais dinheiro da Prefeitura. Publicamente eu enfrentei essa situação. Nos diálogos também muita reclamação de que não conseguiam chegar até o prefeito. Uma outra questão, nada do que foi falado ali, aconteceu. Não houve nenhum aditivo.”

O advogado Márcio Antonio Mancilia, que representa a Vitale e o diretor da empresa, Ronaldo Foloni, disse que seu cliente nunca tentou forçar o pagamento de um aditivo. Mancilia afirma que a Organização Social foi obrigada a assumir uma dívida trabalhista da antiga gestora de R$ 20 milhões, e isso gerou um desequilíbrio nas contas.

Segundo o defensor, sem o repasse a Vitale teria que reduzir os serviços prestados à população. “Essa foi apenas uma discussão e na prática nenhuma medida foi tomada.”

Em relação a Aparecida Bertoncello, Mancilia reforçou que ela não era funcionária remunerada da Vitale. A defesa de Táta afirmou que ela realizava trabalho voluntário e não tinha nenhum contato com dinheiro, não assinou cheques e também não fez nenhuma ordem de pagamento.

Sylvino de Godoy Neto, diretor presidente da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), afirma que nunca tratou de assuntos relacionados a Vitale junto ao prefeito Jonas Donizette. Neto disse que manifestou preocupação com a grave crise financeira do Hospital Ouro Verde e que já prestou esclarecimentos ao Ministério Público.

O advogado de Fernando Vitor Torres Nogueira Franco, Haroldo Cardella, afirmou que a análise ainda é superficial e que o investigado atuava como responsável técnico da Vitale junto ao Hospital Ouro Verde. Sobre a atividade como lobista, o defensor afirmou que Fernando fazia a apresentação da OS para órgãos públicos.

O defensor de Ramon Luciano da Silva, Márcio Bertoldo, afirmou que se reunirá com o cliente para depois, caso ele queira, se pronunciar sobre o assunto. O G1 não conseguiu contato com as defesas de Paulo e Daniel Câmara, Pasquarelli e Corat Júnior até esta publicação.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/ouro-verde-secretario-e-lider-de-governo-na-camara-sao-investigados-afirma-mp.ghtml

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